Carnaval, álcool e saúde: excessos colocam rins, fígado e coração em risco

Saúde e Informação06 de fevereiro de 2026

Carnaval, álcool e saúde: excessos colocam rins, fígado e coração em risco

Médico alerta que não existe dose segura e rebate mitos como “intercalar água com álcool” e “detox” pós-Carnaval

Com a chegada do Carnaval, o feriadão mais aguardado do ano, a combinação entre festa, calor e consumo excessivo de bebida alcoólica se repete em todo o país. Para muitos foliões, beber faz parte do ritual da diversão. O problema é que a falta de moderação pode trazer consequências sérias para o organismo, inclusive para órgãos que costumam ficar fora do radar, como os rins, além de impactos importantes sobre o fígado e o coração.

Segundo o médico nefrologista Dr. Thyago Proença, da Nefroclínicas – Eco Medical Center, concentrar grandes quantidades de álcool em poucos dias, como é comum durante o Carnaval, sobrecarrega o corpo e pode causar efeitos importantes mesmo em pessoas jovens e aparentemente saudáveis.

“O álcool provoca desidratação, irrita o trato gastrointestinal, sobrecarrega o fígado e reduz os reflexos e o julgamento. Isso aumenta o risco de acidentes, quedas e comportamentos de risco”, explica o médico.

Álcool desidrata e não é só o fígado que sofre

Um dos principais mitos populares é o de que apenas o fígado é prejudicado pelo álcool. Na prática, os rins também são fortemente afetados. O álcool inibe a ação da vasopressina, hormônio responsável por ajudar os rins a reter água. Com isso, o corpo passa a eliminar mais líquidos do que deveria.

“O resultado é sede intensa, boca seca, dor de cabeça, tontura e cansaço. Além disso, quando estamos desidratados, o fluxo de sangue para os rins diminui, reduzindo temporariamente a capacidade de filtração”, afirma Proença.

A perda excessiva de líquidos ainda pode causar desequilíbrios de sódio e potássio, afetando a pressão arterial, os batimentos cardíacos e a função muscular. Esses desequilíbrios ajudam a explicar por que o álcool também impacta o coração. Episódios repetidos de exagero aumentam o risco de lesão renal aguda, formação de pedras nos rins, arritmias e piora da hipertensão.

Cerveja hidrata? Não. E água não é “passe livre”

Outra crença comum no Carnaval é a de que a cerveja “hidrata” por conter água. O nefrologista é categórico: isso é falso. “A cerveja não hidrata. Apesar de conter água, o álcool tem efeito diurético, fazendo o corpo perder ainda mais líquidos. O saldo final é desidratação”, diz.

Intercalar bebida alcoólica com água, sim, ajuda a reduzir os danos, mas não elimina os riscos nem autoriza beber mais. “A água não neutraliza o álcool. Mesmo hidratada, a pessoa continua intoxicada, com reflexos prejudicados e exposta a riscos cardiovasculares, neurológicos e renais. É uma estratégia de redução de danos, não uma carta branca para exagerar”, reforça o médico.

Pressão alta, arritmia e queda da imunidade

O consumo excessivo de álcool também pode elevar a pressão arterial e provocar arritmias, inclusive em pessoas sem doença cardíaca conhecida. Outro efeito pouco lembrado é a redução da imunidade, o que facilita infecções, um risco considerável em ambientes com grandes aglomerações, como blocos de Carnaval e festas.

Pessoas com hipertensão, diabetes ou que fazem uso frequente de medicamentos merecem atenção redobrada. O álcool pode interferir no controle da glicose, reduzir o efeito de remédios, aumentar o risco de sangramentos, queda da função renal e alterações neurológicas.

“Nesses grupos, mesmo pequenas quantidades podem causar efeitos mais intensos. A orientação é redobrar a cautela”, alerta Proença.

Urina escura é sinal de alerta

O corpo costuma dar sinais claros quando algo não vai bem. A urina escura é um dos principais alertas de desidratação e sobrecarga dos rins após o consumo excessivo de álcool. O normal é que ela seja clara ou levemente amarelada.

Outros sinais incluem diminuição do volume urinário, cheiro forte da urina, inchaço nas pernas ou pálpebras, náuseas, tontura, cansaço intenso e dor lombar. É fundamental procurar atendimento médico se houver ausência de urina por várias horas, vômitos persistentes, confusão mental, desmaios ou sonolência excessiva.

Em situações mais graves, o excesso de álcool pode evoluir para lesão renal importante. Embora muitas vezes essa lesão seja transitória, ela não deve ser banalizada. “Em casos que evoluem com mais gravidade, há necessidade de internação e até diálise temporária”, explica o nefrologista. O risco é maior em idosos e em pessoas com doenças prévias ou uso de certos medicamentos, como anti-inflamatórios.

Existe dose segura? E detox pós-Carnaval?

Do ponto de vista médico, não existe dose totalmente segura de álcool. Fala-se apenas em consumo de baixo risco: até uma dose por dia para mulheres e até duas para homens, lembrando que concentrar várias doses em pouco tempo, como no Carnaval, aumenta significativamente os riscos. Pode-se considerar uma dose uma lata de cerveja (350 ml), uma taça de vinho (150 ml) ou uma dose de destilado (40 ml).

Para gestantes e pessoas com doenças renais, hepáticas, cardíacas ou histórico de dependência, não há quantidade segura.

Também não existem “detox milagrosos” após a folia. “Quem faz a desintoxicação é o próprio organismo, desde que haja hidratação adequada, alimentação equilibrada, descanso e suspensão do álcool. Produtos detox não aceleram esse processo de forma comprovada”, afirma Proença.

Portanto, explica o médico, moderação é a melhor prevenção. Além disso, deve-se evitar beber em jejum, intercalar álcool com água, estabelecer limites, não dirigir após beber e respeitar os sinais do corpo. “O excesso de álcool não é inofensivo. E os efeitos podem ir muito além da ressaca”, conclui o médico.

Eco Medical Center

O Eco Medical Center é um dos maiores e mais completos ecossistemas de saúde do Paraná. Reúne mais de 400 médicos em 45 especialidades, centro cirúrgico para procedimentos de baixa e média complexidade, exames de imagem e laboratoriais, além de clínicas integradas que oferecem cuidado multidisciplinar. O Eco fica na Rua Goiás, 70, bairro Água Verde, em Curitiba. Telefone: (41) 3123-6550.

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